sexta-feira, março 31, 2006

Nada mais é.
De mim, esta deconstrução que urge, mas que é ela própria uma obra despedaçada.
Quando a mente recorre apressada a passados e ligeiras, súbitas recordações que foram, como que justificando a acção seguinte apenas pelo facto de ter existido outra anterior, sei que se impõe um freio no cavalo da necessidade de me sentir seguro. Quando todo o nexo é o frémito e um conjunto disperso de pontadas de sensação por todo o longo da memória, é a altura de fazer prevalecer não o sono atabalhoado e portanto insónico, mas o sono leve e controlado como uma brisa que progressivamente retarda as cataratas de sangue veia abaixo, náusea acima; faz erodir-se o excesso de inutilidade composta, amontoada.
Depois, debastando um a um os elos, atravessam-se-me outras recordações mais profundas e íntimas, isto é, sem que correspondam a nada em especial, pura imagem de um espaço em que o estado de alma são as coordenadas, puro lado de lá do espelho, lado de lá da metáfora abstracta. São os primeiros sinais, conquanto ainda órgãos do antigo (mas que sou, microscópicamente, enquanto humano, senão um último conjunto de analogias ínfimas e indestrinçáveis em cordas bambas de reutilização?), de um fluxo de identidade mais calmo, um sangue mais regato.
Há sítios inclusive, conquanto simples de físicos, em que se ultrapassa com facilidade o factor representação e se admira a reciprocidade latente entre a descoberta-leitura e a lembrança a descoberto, tanto mais quão mais evocativo estiver o meu olho-intérprete.
É no póstumo dessas mesmas revelações que se revela, açambarcada de pouco, a sua afinal estrutura pontual e facilmente contável, pouco mais que um pouco de quantidade. E sobressaio, afinal, uma mera contagem de hábitos recorrentes, relacionados mais com o acaso que com a minha escolha, e de que tão pouco sobressai, figuras de um presépio sem Natal nem religião, uma cerâmica pintada de negro, o negro do ínfimo existencial que é a qualquer escala.
Capture-se porém, em mais uma fotografia de pouca dura, enquanto cores acinzentadas de efémero, o flash de espírito que as recuperações reflectem na montanha do caos em que o vale único é os olhos fechados.

Apesar de toda a minha raiva, ainda sou só uma ratazana na caixa.
Depois, alguém irá dizer - o que está perdido nunca pode ser salvo.